
Em primeiro lugar, a análise com crianças não se limita ao atendimento delas, pois começamos escutando os pais, que na maioria das vezes são os que trazem a demanda de análise para o filho. Paralelamente, devemos estar atentos a todo o ambiente que circunda essa criança, ou seja, irmãos, o restante da família, professores, médicos e outras relações importantes para cada criança. Não é necessário procurar cada personagem, mas através da escuta diferenciada do analista, dar lugar para que eles entrem através da fala dos pais e da criança. E também, assim como o adulto, a criança recebe o impacto das tensões do outro, mas principalmente e mais diretamente dos seus próprios pais, por isso a necessidade de uma escuta atenta destes.
Nessas primeiras sessões que são feitas com os pais e nas primeiras com a criança, o analista precisa verificar se a situação trazida é mesmo patológica ou fruto do período evolutivo em que a criança se encontra, pois ela ainda é um sujeito em constituição e pode acontecer de não ser necessário que a criança entre em análise.
Mas se há essa necessidade iniciamos o trabalho com a criança. E como explicamos aos pais uma sala com vários brinquedos, papéis e etc? Muitos podem nos perguntar: “mas vou trazer meu filho aqui para BRINCAR? Qual é o objetivo disso?”.
As crianças vão brincar sim, mas não é o brincar do parquinho, da escola ou de casa, é um brincar carregado de significados e muitas vezes com a mesma carga emocional em que um adulto pode trazer a sua fala, ou até maior.
Diferente do adulto que utiliza a linguagem, a fala da criança é o brincar e é através desse brincar que o analista pode ter acesso às fantasias inconscientes da criança, à sua subjetividade. O brincar é expressão simbólica dos conflitos e ansiedades da criança e, através dele temos acesso às angústias que as movem e a tudo que se passa em sua mente.
No brincar em análise a criança faz sem saber o que faz, é o analista quem vai nomear o que ela faz, aumentando a consciência que ela tem sobre isso, sem julgar seus sentimentos ou comportamentos. Nossa tarefa é ir construindo um contato com o inconsciente da criança, para podermos apontar suas angústias, através da interpretação dos conflitos que se exteriorizam no brincar. Uma especificidade do atendimento psicanalítico com crianças em contraposição com a psicologia ou a escola é que o analista não está lá para satisfazer os desejos da criança, nem para educá-la ou dominá-la.
A criança, assim como solicita uma atenção da mãe, solicita uma atenção muito mais intensa do analista do que um adulto. Os brinquedos que colocamos na sala ou na caixa lúdica não estão lá de enfeites ou para alegrar a criança, mas sim para possibilitar uma comunicação.
O material que pode ser utilizado pela criança é extremamente extenso e rico, desde desenhos, produções gráficas, sucata até brinquedos de todos os tipos como bonecos, carros, animais, casas, etc. além da dramatização e representação de papéis. E o mais importante é que o que cada criança faz com esse material é único, e assim como a causa de um sintoma não é a mesma para duas pessoas, um boneco não será usado da mesma forma por duas crianças.


