por Márcia Abreu

Com a chegada do mês de junho, “mês dos namorados”, observa-se nas ruas, na mídia, na internet, uma exaltação ao amor. É na fase do enamoramento que esse afeto se inicia, em que aquela forte atração pelo outro pode dar lugar a um relacionamento mais estruturado. Ao se falar de amor, estabelece-se uma relação com o ciúme. Ligação esta que para muitos está vinculada com o grau de interesse pelo parceiro, ou seja, se não sente ciúmes, não está apaixonado.
O ciúme transforma-se no termômetro amoroso da relação: quanto mais elevado melhor. Será? Ou poder-se-ia falar de subjugação do parceiro ao desejo do outro; ou forma de manter a pessoa amada sob domínio; ou insegurança marcada pelo medo de ser descartado em prol de alguém mais atraente; ou defesa frente a uma ameaça real ou imaginária; ou, ainda, realmente, manifestação de amor?
Mas por que este tema desperta tanto interesse nas pessoas? O ciúme está presente nas variadas formas de relações humanas que se fundam em vínculos afetivos. Ou seja, sentir ciúmes parece ser algo inevitável, visto que as pessoas estão sujeitas a senti-lo em maior ou menor grau.
Importante evidenciar sobre o ciúme patológico que ultrapassa o limite do suportável, com a presença de pensamentos delirantes, fantasiosos, deixando o sujeito na busca permanente de uma confirmação para suas desconfianças. O ciumento fica em permanente vigília e tensão acaba tornando-se desconfiado, acusador e agressivo, podendo ceder a impulsos incontroláveis, ocasionando transtornos e sofrimentos aos envolvidos.
Torturado pelo ciúme, o sujeito não consegue pensar com clareza e racionalidade, afetado pela desorganização de sua vida psíquica. Seu mundo mental fica desarticulado pelo turbilhão de imagens, eternas dúvidas e falsas constatações que fornecem à sua trama uma organização lógica.
No ciúme, existem estados contraditórios: amor e ódio, convicção e dúvida, frustração e gozo; o ciúme traz sofrimento pelo amor perdido e ódio contra o sujeito que se presume infiel. Mas há também um certo prazer nessa dolorosa situação de incerteza, nas inúmeras suposições elaboradas pelo ciumento, na busca obsessiva de uma evidência que irá jogá-lo ao desespero, na dúvida quanto à fidelidade do seu parceiro. O mundo do ciumento é irreal, de artifício e de sonho, em que produz um romance, anexando a infidelidade ao mundo real.
Por outro lado, o que faz com que esse parceiro do ciumento permaneça na relação? Essa posição passiva tem uma função e um sentido. O sujeito que ocupa o lugar de vítima, entretanto, obtém ganhos secundários. Seu mundo mental é permeado de medos e fantasias.
Fantasias de que realmente é objeto de desejo do ciumento, que esse ciúme trata-se de prova de amor, tornando-o essencial e único para esse sujeito. Esse medo da vítima do ciúme é ambivalente: de um lado é representado pelo medo da perda da pessoa amada, da solidão e de constatar o fracasso da relação; de outro, há o medo das atitudes do ciumento: estar sendo vigiado, perda da liberdade, constrangimentos em público e até agressões físicas.
Em sua história de vida, o ciumento passional é narcisista, só existindo ele e sua superioridade, estando apenas voltado para si próprio, não para o outro. Deseja o comando do relacionamento, subjugando seu parceiro e não admitindo o fato de não ser mais amado.
Então, como fica o amor na relação afetiva? O amor exercerá uma função identificatória com a pessoa amada. O sujeito, quando ama, deposita total confiança no ser amado, proporcionando-lhe liberdade de escolha, respeitando sua subjetividade, porém sempre criando momentos de intimidade, onde o romance possa aflorar sem limites.
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